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Turismo
Turismo de onças-pintadas vale 56 vezes mais do que prejuízo de ataques a gado no Pantanal em MT, diz pesquisa

Capacidade de ocupação das pousadas ao longo da Transpantaneira entre 2010 e 2016 aumentou 20%.


 

Apesar de considerada uma ameaça ao gado por muitos pecuaristas, o ataque da onça-pintada é algo quase impossível de ser evitado. O felino é veloz e forte, tem garras afiadas e uma potência na mordida.

No entanto, um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade de East Anglia, universidade pública de pesquisa britânica, apontou que a renda com a conservação e o turismo de observação de onças-pintadas no Pantanal supera em 56 vezes eventuais ataques das onças na pecuária.

Na semana do Meio Ambiente, o G1 publica, em parceria com a TV Centro América, uma série de reportagens sobre o assunto e detalhes da Expedição Travessia e da Expedição Rio Paraguai - das nascentes à foz. No dia 5 de junho é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente.

O turismo da vida selvagem tem crescido exponencialmente e sido usado como argumento financeiro para a conservação das espécies.


O estudo abordou operadoras de turismo no Pantanal, especificamente na região de Porto Jofre, entre Poconé e Barão de Melgaço, municípios a 104 e 121 km de Cuiabá.

Fernando Tortato, biólogo e pesquisador do Instituto Panthera, que trabalha com onças no Pantanal, participou do estudo, feito em 2015.

Naquele ano, o ecoturismo da onça-pintada representou uma receita anual bruta de 6,8 milhões de dólares, ou seja, cerca de R$ 22,7 milhões em receita anual.

A pesquisa, ao considerar ataques de onças-pintadas a gado de fazendas, apontou que os animais causavam perdas de 121 mil dólares por ano por conta da perda das vacas e bois.


A diferença entre ganhos e perdas, na avaliação dos pesquisadores, reforça a importância do turismo de vida selvagem como uma ferramenta para aumentar a tolerância de onças-pintadas nas fazendas.

Nesse raciocínio, os pesquisadores sugeriram a parceria entre o ecoturismo e pecuaristas: uma fórmula para que as perdas de gado provocadas em ataques de onças fossem 'compensadas' por um sistema de doações voluntárias de turistas.


A pesquisa cita exemplos da África e Índia, que registraram aumento no turismo dentro de programas e projetos de conservação.

Na América do Sul, o turismo de onças-pintadas é relativamente recente: cresceu nos últimos 25 anos e ocorre principalmente em áreas protegidas e fazendas particulares no Pantanal, tanto em Mato Grosso quanto Mato Grosso do Sul.

 

Crescimento de turistas, guias turísticos e hospedagens

 

O Pantanal é reconhecido pela abundância da vida selvagem em uma área de 140 mil metros quadrados.

O estudo foi realizado no Parque Estadual Encontro das Águas, localizado nos municípios de Poconé e Barão de Melgaço, em Porto Jofre. A região é baseada em pecuária, pesca esportiva e turismo voltado para a vida selvagem.

Os pesquisadores compararam receitas de agências de turismo, pousadas, guias turísticos e pecuaristas, além de analisar dados sobre criação de bovinos na área.


No ano em que o estudo foi feito, os proprietários de pousadas e chalés apontaram que os serviços de hospedagem e alimentação aumentaram nos últimos 5 anos e tinham tendência de continuar aumentando nos próximos anos.

Por conta disso, fizeram reformas na estrutura dos hotéis para poder acomodar a crescente demanda, que chegou a aumentar 20%: de 184 leitos em 2010 para 221 leitos em 2016.

 

A diária de hotéis também aumentou, em média, 24% entre 2015 e 2016. O estudo descobriu que com o aumento de turismo de onças, ocorreu um aumento no número de guias especializados e de pousadas nos últimos 10 anos.

 

Compensação

 

A pesquisa também entrevistou turistas, que receberam a informação sobre a existência do conflito entre onças-pintadas e criadores de gado.

O estudo sugeriu a criação de um esquema de compensação para perdas de gado através de doações voluntárias. O sistema funcionaria como uma ferramenta de conservação para a população de onça-pintada em qualquer parte da Terra.


Cerca de 80% dos entrevistados concordaram em, em média, doar 6,8% do valor das diárias que pagavam para doar a um sistema de compensação.

Considerando o custo médio diário de hospedagem por turista de 412 dólares, esses 6,8% representariam uma média diária de 32 dólares. Portanto, o esquema de compensação criaria um cenário 'ganha-ganha' tanto para o turismo das onças quanto para pecuaristas, evitando que fazendeiros matassem os animais como 'represália'.

 

Mudança socioeconômica

 

Para Ailton Lara, que é empresário, fotógrafo e guia de turismo na região de Porto Jofre, a demanda de turistas interessados em observar a onça provocou uma mudança econômica na região.


Para Lara, existem vários métodos para evitar a depredação da onça e evitar o conflito do gado e da onça.

“Pode-se colocar cerca elétrica, para proteger o gado, separar vacas pequenas e mais vulneráveis e colocar junto com búfalos. A onça-pintada tem muito medo de búfalo”, aconselhou.


O crescimento no turismo causou um interesse e procura por pessoas para trabalhar diretamente com a observação das onças.

“Tudo que construí até hoje foi com a ajuda da onça. Não existe mais aquele mito do 'amigo da onça', com um lado pejorativo. Amigo da onça é amigo de verdade, a onça salva vidas. O turismo transformou a presença da onça: de ameaça para uma fonte de renda sustentável que beneficia a todos”, finalizou Lara.


 

Autor: Por Denise Soares, G1 MT
Data: 06/06/2019
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