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Artigo - Oscar D'Ambrosio: A nova rota da seda: caminhos da expansão chinesa
 

Há alguns dias, a recepção de chefes de Estado pelo líder chinês Xi Jinping para promover a iniciativa “um cinturão, uma rota” provocou algum alvoroço na mídia internacional, ofuscada somente pelo mega-ataque cibernético wannacry e pelo teste balístico norte-coreano.

O fundo “um cinturão, uma rota”, que já contava com US$40 bilhões, recebeu a promessa de aporte de mais US$70bilhões do governo chinês. O fórum também serviu como uma espécie de chamado para novos contribuintes, estatais e privados.

Apesar das incertezas sobre os projetos que comporão a “nova rota da seda” e sobre os valores a ela concernentes, algumas publicações chegam a mencionar investimentos da ordem de US$900 bilhões entre projetos já realizados e a realizar nos próximos anos. Apenas para ilustrar a quantia estipulada, de acordo com dados do Banco Mundial, em 2015, somente 15 países possuíam PIB, em preços correntes, acima de 1 trilhão de dólares.

A iniciativa é ambiciosa também do ponto de vista geográfico. Envolve acordos com mais de 60 países entre a Ásia, a África e a Europa para o estabelecimento de corredores de transporte e comunicação.

Todavia, a disposição de Pequim em financiar e organizar esta iniciativa não deve surpreender os observadores mais atentos. Proponho uma breve análise deste fato considerando aspectos recentes da economia e da política externa chinesa.

O desempenho econômico chinês das últimas décadas é amplamente comentado. Em um primeiro momento, não se diferenciou muito daquilo que outros países asiáticos já haviam praticado: atração de investimentos diretos direcionados a manufaturas de exportação, controle estatal do câmbio e de conglomerados industriais estratégicos, bem como amplas políticas educacionais em ciências básicas e engenharias. Por outro lado, características culturais e a atuação do Estado resultaram em altas taxas de poupança-investimento

Como resultado, registraram-se vultosos superávits na balança comercial e no balanço de pagamentos e uma taxa média de crescimento do PIB próxima de 10% ao ano, entre 1990 e 2012. Para além do crescimento e diversificação do parque industrial e da oferta de infraestrutura na China, esse contexto proporcionou grande acumulação de capital, o que pode ser verificado pelo crescimento das reservas, pela criação de fundos soberanos e pelo fortalecimento e surgimento de novos bancos de desenvolvimento que estão entre os maiores do mundo. O chamado “modelo asiático de desenvolvimento” emprestado pelos chineses, contudo, foi abalado pela crise financeira que acometeu os Estados Unidos e, posteriormente União Europeia, vorazes compradores do que se produzia no gigante asiático.

A ampla coordenação entre as instituições do Estado chinês e a acumulação de capital permitiram que os chineses recorressem a uma política anticíclica materializada em um quantitative easing em torno de US$580 bilhões. Embora tenha mantido a economia chinesa aquecida, tal injeção de capital elevou significativamente a proporção dos investimentos na China e provocou capacidade ociosa em setores “pesados”, ligados à infraestrutura e construções em geral. Chegava o momento em que a economia chinesa diminuía seu ritmo e acedia a uma “nova normalidade”, com taxas de crescimento em torno de 7% ao ano. Com expertise e capital sobrando em setores que, internamente, encontravam-se saturados, entrava em cena a diplomacia econômica chinesa.

A vinculação entre interesses econômicos e política externa não é nada extraordinário, embora alguns países procurem discursos mais neutros nesse sentido. Na China, pelo contrário, desde Mao Zedong as políticas de cooperação fizeram parte da estratégia de sobrevivência de um país assombrado não apenas pelo contencionismo norte-americano, mas também pelo expansionismo soviético. É desse tempo que surgem os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica, a Conferência de Bandung e o Movimento dos Não-Alinhados.

Após décadas de insistência no combate ao hegemonismo respaldados pelos princípios da não-intervenção, a China, em contexto já distinto, incorporou novos princípios em sua política externa. Visando a manutenção de um ambiente favorável ao seu crescimento econômico e uma postura mais transparente em relação às potências ocidentais, passou a publicar “livros brancos” sobre defesa e segurança internacional, onde o tema econômico passou a ter evidente importância.

Na virada do século, o “novo conceito de segurança” introduziu no vocabulário diplomático chinês o termo win-win para se opor a uma concepção realista que, grosso modo, sustenta a existência de relações de soma zero. As relações win-win prezariam pela formação de Parcerias Estratégicas como espaços para concertação de interesses. Com as potências estabelecidas, o tom do discurso passou a apostar no “poder responsável” e no “desenvolvimento pacífico”. Com o “mundo em desenvolvimento”, foi resgatado o “Espírito de Bandung”.

A Nova Rota da Seda, deve ser entendida nesses termos. Por um lado, a China carece de novos espaços de acumulação e, por outro lado, aprofunda uma tradição de estabelecimento de laços cooperativos como espaços para negociação.

Da América Latina, apenas Argentina e Chile participaram da última e pomposa reunião. O Brasil, que almejava alguma proeminência na região, se ausenta de um espaço de debate importante e que, confirmadas as expectativas de investimento conjunto, será fundamental para os rumos da economia global nos próximos anos.

Gustavo Erler Pedrozo é doutor em Relações Internacionais e Desenvolvimento pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da FFC-UNESP e professor substituto no departamento de Administração Pública da FCLAr-UNESP. Integra o Grupo de Pesquisa dos BRICS. 

Autor: Oscar D'Ambrosio
Data: 17/05/2017
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